Abrindo o “baú da vovó”: a coragem de olhar dentro de si mesmo

Por Gustl Rosenkranz
Há poucos dias, não me sentia muito bem. Tinha um conflito com alguém de quem gosto muito e muita dificuldade de compreendê-lo. Sentia-me triste, até mesmo angustiado e também muito cansado. O conflito com essa pessoa me doía muito, doía até demais, tanto que percebi que não poderia ser algo ligado unicamente à pessoa em questão. A dor era tão forte que ficou claro que deveria ter mais alguma coisa por trás dela.

Resolvi parar, refletir, tentar entender o que estava acontecendo. Pensei, meditei e fiz, mais uma vez, uma experiência muito rica, algo muito importante, que gostaria de partilhar aqui com você: tive a coragem de olhar com carinho e lucidez para dentro de mim, fui a fundo, com os olhos e o coração abertos, até que encontrei o que chamo de “baú da vovó” – é claro que o baú é meu e não de minha avó, mas acho esse nome mais simpático que “meu baú” Tive o peito de abri-lo e vi como ele estava cheio, cheio de coisas, de experiências boas e menos boas, de dores, de medos, mas também de alegrias e esperanças. Vi lá dentro muitas recordações, de momentos lindos que vivi, de fases difíceis pelas quais passei, vi sonhos e desejos, dúvidas e certezas, inseguranças, arrependimentos do passado e muita confiança no futuro.

Comecei a mexer nas coisas, arrumando um pouco, colocando-as para o lado, procurando por aquilo que me era mais urgente naquele momento, que me permitisse entender minha dor, meu sofrimento naquele conflito, que estava me ocupando, me bloqueando, sem que eu entendesse bem o porquê. E encontrei! Encontrei coisas passadas, feridas abertas, ainda não bem cicatrizadas, decepções vividas no passado, meu próprio “fracasso” ao lidar com essas decepções, meu rancor, que não era mais atual, mas que ainda estava lá guardado, e meu medo, o medo enorme que tinha que certas coisas se repetissem. Tive receio de tocar nessas coisas, mas sabia que precisava tocá-las, segurá-las na mão, desmanchando nós, libertando o que estava preso. Confesso que o medo foi grande, mas enfrentá-lo me ajudou a crescer. Segurei tudo aquilo na mão, senti a dor de tudo que segurava, sofri calado por um momento, aceitando com serenidade aquele instante de profunda reflexão. Mas depois, já mais tranquilo, continuei mexendo no baú, olhando o que ainda estava lá, e encontrei muito mais coisas. Bem ali, ao lado daquela dor que eu até agora tinha trancafiado, isolando-a aparentemente de mim, estavam também coisas boas. Continuei fuçando e olhando os “cacarecos” de minha vida, até que segurei algo que me fez muito bem: segurei minha própria força. Sim, percebi que estava triste, que algo me fazia sofrer, mas tinha em mãos também a força que precisava para superar tudo aquilo. Ao segurar essa força, ao senti-la entre meus dedos, perdi o medo de tudo que tinha visto anteriormente, entendi que era necessário ver com clareza o que estava ali dentro e compreendi também que tudo estava bem, pois eu cresci e amadureci, tendo hoje força suficiente para enfrentar e resolver aquelas coisas que guardei no passado, quando estava fraco e ainda sem a maturidade necessária para solucioná-las.

Vejo muita gente buscando sua paz interior e procurando sabedoria em livros e textos de autoajuda. Vejo uma enorme ansiedade nas pessoas, que desejam simplesmente encontrar essa paz e ser felizes. Nesse momento de reflexão, ficou claro para mim mais uma vez que carregamos conosco as respostas que precisamos. Penso que faz pouco sentido buscar essas respostas fora de nós. Livros, artigos ou mesmo outras pessoas podem ajudar alguém, claro, mas a decisão final de permitir o autoconhecimento é sempre da própria pessoa. Sim, textos de autoajuda têm sua validade (se não pensasse assim, não os escreveria!), mas esses textos e a ajuda de alguém de fora só podem servir de impulso, como incentivo ou mesmo “um pontapé no traseiro”.

Assim, lhe peço: pare de vez em quando, principalmente nos momentos difíceis, e tenha a coragem de olhar bem lá dentro de você. Encontre seu baú, abra-o, olhe o que está dentro e veja o tamanho da riqueza que ele abriga: recordações, emoções, sabedorias, experiências de vida… Mesmo que isso lhe amedronte, não desista. Mexa nas coisas, segure-as na mão, sinta-as e busque as respostas necessárias para o momento. Não pense que isso será fácil, pois é preciso coragem. Mesmo que você não tenha consciência disso, seu medo é grande, já que, no fundo, você sabe que escondeu certas coisas ali dentro por não ter tido coragem ou condições de enfrentá-las. Mas encare esse medo de frente e abra seu baú. Talvez você também descubra, como eu, que seu sofrimento atual pode ser um reflexo de algo do passado, que você guardou por não dar conta de resolver na época. E é possível que você também perceba que tem hoje força e maturidade suficientes para tirar algo do baú para finalmente resolver, desatando certos nós, diminuindo a angústia e a tristeza, ganhando espaço para guardar outras coisas, talvez para guardar mais coisas boas.

De minha parte, espero ter a sabedoria de olhar mais vezes para o que está no meu “baú da vovó”, pois sei que ainda há muita coisa interessante lá dentro 🙂

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Gustl Rosenkranz
Como já diz o nome de meu blog, escrevo fazendo uso de uma das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, menos preocupado em agradar do que em mexer com o leitor, de forma clara, até mesmo carinhosa, mas sempre suavemente subversiva e profunda.



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