Abdico-me

Suas mãos eram de cura, mas nossas peles se encontraram e reconheceram.

Como em uma explosão astronômica, a energia que fluía pelo seu corpo, suas veias, seus músculos, seu coração bombeou, intensificou e elevou a frequência, contaminando cada célula sua a deixar a energia maior do encontro transparecer pelo toque de suas mãos.

Meu corpo estava anestesiado, sem o vibrante pulsar da vida a correr por minhas veias. Prometi a mim relaxar em suas mãos afim de revigorar minha vitalidade. Porém a cada toque que deslizava em minha pele minhas células começaram a vibrar com a inusitada visita. Éramos desconhecidos, mas como se por algum código desconhecido por mim, nos reconhecíamos momento a momento.

Choque. Vitalidade. Sede. Respiração. Suor. Beleza. Leveza. Perfume. Entrega. Instinto. No escuro as tímidas velas acendiam. A energia mágica correu pelo meu corpo rápida como sua própria energia elétrica. Em instantes nos perdemos de quem éramos. Seguimos os instintos primários em uma entrega brutal.

Corpo a corpo colados. Sussurrando. Minha boca a desejar a sua. Meus ouvidos a regozijarem-se ao seu som. Meu ar em nossa respiração. Um momento poderoso. Ainda sim, meu corpo me implorou por mais. Você cedeu. Ao nos encaixarmos, céu e terra tornaram-se um. Éramos uma dança maior. Vivemos como sagrados. Nossa conexão se expandiu. Explodimos alcançando a magnitude de algo além de nós. Corrente elétrica em alta tensão.

Cores,sons,brilho,irradiação.

Nossos corpos usaram sua própria inteligência. Nossos corações pulsaram juntos. Nossas vidas se entrelaçaram no céu e na terra. A luz se instalou fazendo crescer as sombras de cada um. A transcendência modificou os nossos corpos, abriu nossas mentes, encontrou nossas almas.

Dias foram necessários para voltar a mente completamente. Tudo ao redor era harmônico. O vento beijava meu corpo, os cheiros eram mais aguçados, as cores mais vívidas, no silêncio a contemplação. Uma nova forma se instalou em mim, para além da cura que eu antes esperava.

Anos se passaram e, ainda sim, se me permito por instantes respirar a sensação dos dias seguidos, sou capaz de trazê-la ao momento atual. Não há outra forma de reviver esta experiência sem, de alguma forma, por consequência, te trazer para perto de mim.

Nos servimos como fonte um do outro. Não há tempo e espaço que afaste este privilégio vivido dentro de nossas entranhas e testemunhado por nossos corações pulsantes e rítmicos. Levo este pulsar com a vida de dentro de mim para a minha eternidade.

Enxergo como uma prece. Me torno o vinho de minha própria existência. Saúdo e agradeço a alma que carrego neste corpo por ter aceitado ir além do que sua mente a limitava. Mas tu fostes a fonte primordial e testemunha. Nos momentos de prece comigo mesma, acabo por saudar-te no silêncio e na graça que corre entre nós.

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Helena Verhagen
Helena é jornalista de formação e escritora por intuição. Nasceu em São Paulo, viajou pelo mundo e agora parou em Lisboa. Em 2015 lançou seu primeiro livro "O Mundo é das Bem-Amadas" que trata sobre o amor próprio e intuição. Vive a vida para contar histórias. Escreve para o seu site, que leva o mesmo nome do livro (www.omundoedasbemamadas.com.br) e outras mídias que abordam sobre o tema autoconhecimento.



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