A vida é um sopro

Por Carolina Vila Nova

Existem pessoas que parecem nunca mudar suas vidas. Nascem numa cidade e nunca se mudam. Algumas sequer viajam. Tem gente que passa a vida trabalhando para ter mais dinheiro no futuro, mas nunca o usa no presente. Para algumas pessoas a ilusão de se ter o domínio sobre o amanhã é o que mais lhes traz felicidade, pela falsa segurança que isto provoca. Falsa porque ninguém pode prever realmente o dia de amanhã. Se de um lado esta imobilidade faz uma pessoa segura, junto com ela vem estagnação.

Muitos são os que têm medo da morte. Não deve mesmo ser algo fácil encarar o absoluto desconhecido e de forma tão solitária. Mas, pior do que morrer é viver a vida pensando nisso. Enquanto alguns vivem desafiando a morte, há uma quantidade muito maior de pessoas que deixa de experimentar coisas incríveis durante a vida pelo medo de perdê-la. No entanto, já a perde antes mesmo do falecer do corpo.

Sem contar os que vivem em torno de doenças, ao invés de usar a saúde que tem, pouca ou muita, para o dia que esta aí.

Desde pequenos ouvimos os mais velhos dizendo: “A vida passa rápido demais”. E passa mesmo. Escorre por entre nossos dedos como água. Ou passam por nossos corpos como o vento.  A vida é um sopro.

Do alto dos meus quase quarenta, quando olho para trás, percebo um olhar de criança sobre algumas coisas e ainda me pego questionando: por que só agora fui entender tão nítida lição? Por que não fui diferente antes? Como não me dei conta de que tal coisa funciona assim? E assim por diante.

Não é fácil olhar para trás e se dar conta de tantos erros e tantos entendimentos que vieram apenas com o passar dos anos. Mas pior do que os arrependimentos das atitudes incorretas ou impensadas é a atitude nenhuma.

Somos seres sonhadores, pensantes e também errantes. Precisamos de nossos sonhos para criar as metas de vida que nos causam bem estar quando as atingimos. Assim como precisamos dos erros para o crescimento e maturidade individual.

Passamos muitas vezes uma vida inteira temendo a morte. Anos e anos nos lamentando pelos erros do passado. Mas até esse lamentar faz parte de nosso aprendizado. Pior do que deixar de viver pelo medo de morrer e do deixar de fazer pelo medo de errar, é o ir embora desta vida com a culpa de não ter vivido.

A vida está aí para ser vivida da melhor forma. Agora. Com o sorriso nos lábios, amor no coração e boa vontade com o que quer que a vida traga.

“Ah, mas e se estiver chovendo? Vivo amanhã!”.

Amanhã poderemos não estar mais vivos para sentir o frescor da chuva.

“Ah, mas eu não posso gastar meu dinheiro agora”.

Amanhã, se estivermos mortos, sequer precisaremos de tal dinheiro.

“Ah, mas agora eu tenho que trabalhar”.

O trabalho deixa de ter qualquer significado quando partimos desta para melhor, como tantas outras coisas.

Para cada um de nós há diferentes razões de felicidade e contentamento sobre a existência. Então, que cada um possa vivenciar essas razões agora, porque o dia de amanhã pode simplesmente não existir.

A vida é mesmo um sopro.

Aproveite a brisa!

a vida e um sopro

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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