A sexualidade feminina assusta

Por mais amor e menos pudor.

Uma vez um amigo me relatou que se sentiu muito desconfortável e desiludido com uma namorada que teve tempos atrás, porque ela se tocava durante a relação sexual para chegar ao ápice. Sua fala ecoava algo como: “Então eu não sou o suficiente para levá-la às alturas?”.

Desse gesto da namorada vieram as dúvidas sobre o que ela sentia por ele, sobre a atração que ela sentia, e por aí vai. Veio a tensão, a relação acabou, ficou a dúvida.

– Nunca falaram sobre isso. Tampouco algum de seus amigos soube falar algo claro sobre isso. A verdade é que são poucas as pessoas abertas a falar sobre essas coisas, principalmente quando se trata da sexualidade e do prazer feminino.

É assustador para alguns homens que as mulheres não se satisfaçam apenas por estarem com eles como eles querem. Não surpreende que a maioria pense que o simples fato de eles fazerem apenas aquilo que consideram prazeroso seja o suficiente para que a parceira também sinta prazer.

Há inclusive os que nem se preocupam com isso. Essa postura é comum, é rotineira e não faz parte de diálogos. Na verdade, é bastante assustador para muitos homens que uma mulher fale de sexo abertamente, de um modo geral, e isso muitas vezes logo é interpretado como uma pré-disposição da mesma para que ela faça qualquer coisa, com qualquer pessoa porque “tem mente aberta”.

Acontece que ter mente aberta não significa fazer qualquer coisa com qualquer pessoa, significa conhecer algo o suficiente para não ter medo, e por não ter medo e buscar conhecer, falar disso.

Porque quando falamos sobre as coisas – principalmente coisas naturais, que fazem parte da vida, sendo que a sexualidade é apenas uma delas – tudo fica muito mais fácil. Perdem-se os medos bobos, os preconceitos, as vergonhas e tantas outras fontes de frustração; aprende-se a fazer escolhas mais acertadas; descobre-se mais sobre a vida, sobre o corpo, sobre si, sobre a diversidade que pode existir no outro. Descobre-se, inclusive, que a sexualidade não se resume ao ato sexual, mas é parte essencial na nossa existência e faz parte do cotidiano. É surpreendente que em uma sociedade tão sexualizada, com tudo tão explícito e até banalizado, falar desse assunto ainda seja um tabu.

Sexo é bom, mas não é bom de qualquer jeito e com qualquer pessoa. Como tantas outras coisas, cada pessoa tem suas particularidades, seus desejos, fantasias, preferências e limites.

Em uma relação que se pretenda duradoura, saudável e agradável para as duas pessoas, é essencial falar sobre isso. Mesmo fora de uma relação, ter essa atenção consigo e com o outro pode tornar o que é bom (ou deveria ser) ainda melhor. Transar com uma pessoa é uma forma de conhecê-la muito intimamente. É um diálogo com o corpo e com as emoções.

Quanto mais se busca conhecer essa intimidade – a própria e a alheia – melhor a troca, melhor o encontro, e isso reflete em vários outros aspectos da vida.

Para além das relações, a sexualidade feminina também assusta e é alvo de juris sociais onipresentes: assusta sair dos padrões, assustam as fantasias das “garotas”, assustam os gostos e as roupas, o batom vermelho e a iniciativa. Assusta o desejo de independência e compromisso ao mesmo tempo. Assusta não querer ser mãe, nem esposa, nem monogâmica.

E não é só às mulheres que esse pavor da sexualidade feminina prejudica: assusta aos homens que uma mulher não se importe que o seu pênis não seja grande e o deseje assim mesmo, assusta que ela o considere atraente embora esteja fora dos padrões estéticos, não tenha uma “barriga tanquinho” nem seja forte ou rico. Assusta que ela queira realizar aquela fantasia dele porque também é a dela. Assusta que ele tenha em si algo de uma sexualidade feminina.

A sexualidade assusta de muitas formas, pois não somos educados para ela e somos intoxicados de romances idealistas por um lado e pornografia barata por outro. Ainda vivemos em uma sociedade que insiste em separar sexo e amor como se fossem duas coisas inconciliáveis.

Parece que andamos esquecidos de que há muitos milhões de anos superamos a era das cavernas, e assim, o sexo, a sexualidade, como tantas outras características humanas, também evoluíram. Não transamos apenas para reproduzir, nem nos unimos para nos proteger contra ataques animais ou para povoar uma comunidade com trabalhadores e guerreiros.

Os atributos que uma vez fizeram sentido e foram essenciais para a nossa evolução já não importam mais, assim como os dentes do siso não tem mais uma função. Seria legal que a nossa mentalidade evoluísse como (ou mais que) o nosso corpo. Seria legal que usássemos isso em favor de uma convivência mais harmoniosa. Seria muito bacana que nos importássemos menos em julgar a sexualidade alheia e nos preocupássemos mais com a nossa.

Afinal, em tempos que ruminam a intolerância e a ignorância de épocas passadas, apesar da psicanálise e de todo o conhecimento construído acerca da sexualidade humana, “todo mundo tem problemas sexuais”. Cabe a cada um resolver o seu.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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