A que ponto chegamos?

Quando começamos a “nos acostumar” com as movimentações de ódio por todo o país, uma cena apresenta-se ainda mais chocante: a total indiferença com relação ao humano.

Na última quinta-feira (21), após o desabamento da ciclovia da avenida Niemeyer, em São Conrado- Rio de Janeiro, uma imagem postada pelo fotógrafo Felipe Dana emudeceu as pessoas que acompanhavam a tragédia pela internet. Nela, pessoas mantinham sua rotina de atividades e lazer com total indiferença aos corpos estendidos na praia. Tudo parecia seguir tranquilamente como se nada tivesse acontecido, como se ignorar a morte e a dor de nosso semelhante fosse uma opção viável em dia de sol e praia.

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Fotografia- Felipe Dana

A violência e a descredilidade pelas quais todos estamos passando e sendo obrigados a conviver, certamente está deixando marcas mais profundas do que as manifestações de ódio com as quais estamos todos tendo que lidar diariamente. Até porque, quando o ódio aparece, algum sentimento está sendo demonstrado. Entretanto, quando as pessoas se colocam totalmente alheias e não apresentam nem mesmo a curiosidade mórbida pelos corpos, a alma da humanidade também sangra e morre.

No ano passado tivemos uma comoção nacional pela morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo e essa comoção já foi tratada com desprezo por muitos que diziam que a comoção pública era manipulada e fruto da ignorância do povo. Se não havia justificativa pelo talento ou real conhecimento do cantor, pouco importava, mas havia um sentimento associado, um luto possível onde as pessoas choravam pela perda de alguém, onde se identificavam de alguma forma com uma pessoa humilde que teve sucesso e que teve a vida abreviada. Não foi diferente quando a barragem de Marina se rompeu. Também houve uma cobertura exagerada da mídia. Mas, nessa situação, as pessoas também se sensibilizaram porque viam a dor do outro que perdeu a vida, a casa. Sensibilizam-se porque viram que, frente a algo daquela proporção, ninguém é imune e, assim, enquanto choravam pelo outro, também choravam por suas próprias perdas e medos.

Mas, e quando a indiferença se instala e mais nada aparece?

É impossível não evocar a imagem de um vulcão aparentemente adormecido, mas que na verdade está cheio de lava a pulsar. Quando entrará em erupção? Será que haverá tempo para fuga? Terão as pessoas consciência do tamanho da destrutividade ou serão todas mortas pela ignorância do desconhecido, como aconteceu na cidade italiana de Pompéia, em 79 d.C?

No filme alemão “A Onda”, de 2009, um professor torna-se um líder ditador quando aparece como única forma de organização de um grupo de jovens sem objetivos.

Quando o afeto não é direcionado para vínculos e laços humanos saudáveis, quando as pessoas perdem seus sonhos e não enxergam mais objetivos, sobressaem-se as necessidades básicas pelo prazer imediato ou por algo ou alguém que lhes diga o que fazer, a quem obedecer ou até mesmo a quem odiar. O senso crítico é falho se desconsiderar o humano.

Que a fotografia da morte de dois semelhantes não deixe de ser um retrato educativo do que estamos vivendo, que nossas vidas não sejam em vão a ponto de não nos importarmos mais com aqueles que caem ao nosso lado durante a jornada.

Que possamos perceber que aquele que morre também é parte de nós.

A lava pulsa, espero que seja vista a tempo.

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Outros sites que falaram sobre a foto: O GloboDiário Online, Extra.Globo

Nota: Para quem questionou a veracidade da imagem, no texto há o link do fotógrafo que assina e explica a fotografia. A cena também foi televisionada (na altura dos 20 min é possível ver as pessoas brincando- certamente um dos momentos em que o fotógrafo captou). Entretanto, esse fato ter acontecido não quer dizer que todos foram indiferentes. Sabemos que muitos, provavelmente a maioria, foram solidários. Mas todos sabemos também que as pessoas que convivem com mortes perto de si começam a “se acostumar” a desviar dos corpos e seguir com a vida. É dessa perda de sensibilidade que falo e a reflexão é sobre isso: sobre como a sociedade tem nos empurrado cada vez mais para a falta de humanidade, mesmo que seja como um mecanismo de defesa. Mas há consequências por causa dessa repressão da sensibilidade e da dor e não podemos deixar de refletir sobre isso.

Nota 2:O site e-farsas também já analisou e comprovou a veracidade da imagem.

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Josie Conti
Blogueira e empresária. Após trabalhar anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, a Josie Conti ME e sua equipe trabalham prioritariamente na internet na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 6.5 milhões de usuários. É idealizadora da CONTI outra, o projeto inicial que leva seu nome.



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