A morte da Morte

Por Lúcia Costa

Não se falava em outra coisa no povoado: a Morte falecera durante a madrugada vítima de um câncer que paralisou sua existência: conduzir homens e brutos ao escuro gasoso.

A certeza da vida fora garantida pelo  falecimento da Morte. Todos viveriam sem interrupções.

Velhos riam, dançavam, abraçavam-se, beijavam os parentes maiores e menores, agarravam-se às sementes geradas em barrigas próximas.

Para as crianças, esse acontecimento não gerava a mesma euforia: continuavam a pedalar suas bicicletas, a pular amarelinha, a brincar de esconde-esconde. Crianças desconhecem a iminência do adeus. Escrevem no chão sua epopeia através de pés que crescem. Há uma norma à morte imposta por sua própria natureza: não se deve levar para passear pés em desenvolvimento; eles digitam, no barro e  no asfalto, a história do Mundo. Mas nem sempre essa resolução é mantida: pequenos historiadores são levados, de vez em quando, a conhecer os cavalinhos no carrossel do parque da Morte. Eles se encantam com o sobe e desce dentro de um giro sem fim. Nunca voltam. Talvez fiquem tontos demais para descobrir o caminho de volta aos braços dos pais. Talvez!

Os bichos também não demonstraram vitória: os gatos continuaram a perseguir ratos, bebiam leite e arranhavam crianças que lhe incomodavam querendo lhe acarinhar; os cães continuavam a perseguir gatos, roíam osso, andavam militantes à procura de cadelas no cio.

A Morte estava sendo velada à solidão. Era um funeral onde só a protagonista participava, inerte e distinta. Ninguém para lhe levar grinaldas, nem velas. Nenhum líder religioso veio lhe recomendar o corpo. Os sinos da igreja não anunciaram aquela perda. A única rádio da cidade não emitiu nota de pesar. A Morte não tinha vizinhos, parentes vivos, ou bichos de estimação que dessem por sua falta quando viesse a lhes faltar.

Mas o juiz da cidade ordenou que tinham de enterrá-la. Fosse onde fosse. Inútil: todos desobedeceram à ordem do magistrado. Não temiam as consequências da infração; receavam mesmo era ter que conduzir a cerimônia. Como chorar uma lágrima que vem do contentamento? Como pintar de preto aquele dia se a própria alma estava vestida de cores primárias? Não queriam, pelo menos naquela oportunidade, repetir a falsa devoção. Tentavam esconder a alegria, sem êxito; estava no hálito, nos poros, nos cabelos, nos seios das mulheres.

Diante da recusa de todas as forças oficiais, civis e militares da cidade, o juiz convoca um velho curandeiro que morava no alto de uma serra que margeava o pequeno vilarejo. Sua casa era um espaço entre pedras. Como vivera, de que se alimentava, não se sabia. Passou parte de sua vida rezando no mau-olhado dos outros e um outro atirou um mau-olhado em sua vida carregando a única mulher que conseguiu amar. Furtaram-lhe. Furtou-se às pedras.

O senhor foi à casa da Morte, envelopou-a, carregou-a nos braços até o alto da Serra, recomendou-lhe em várias preces. Chorou verdadeiro. Coroou com flores a solitária. Olhou a face da Morte e ela estava levemente rindo. Tocou-lhe o rosto sem rugas. Acariciou as tranças negras.  Armou duas redes embaixo de uma árvore enorme, depositou-a em uma, deitou-se na outra. O velho descansou os olhos e a alma da saudade da esposa. As pedras ficaram sozinhas.

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Lucia Costa
É professora de Língua Portuguesa, mora em Patos, PB e escreve poemas, contos, crônicas…



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