A moça no vídeo poderia ter sido eu.

O marido chega em casa e diz para a esposa:

-Acho que as mulheres precisam se preservar mais sabe! Olha esse vídeo.

Antes de ver o vídeo ela o fuzilou com os olhos. Nunca lhe desceu pela goela esse papo de preservação. O que precisa ser preservado é o meio ambiente!

Ela ia começar o discurso quando ele se aproximou o mostrou-lhe o vídeo. Duas mulheres caminhavam pelo parque da cidade. Uma delas vestia uma calça de ginástica branca e uma blusa colorida. A calça estava colada no corpo – como são praticamente todas as calças que nós mulheres usamos quando fazemos qualquer atividade física – e dava para ver que o bumbum dela era bonito.

O vídeo foi filmado por um homem que caminhava logo atrás delas. Chegou ao casal porque o cinegrafista amador compartilhou o mesmo para um grupo de amigos do What´s app, provavelmente porque gostou dos glúteos dela.

A única coisa que a esposa disse ao marido quando terminou de assistir ao vídeo foi:

-Poderia ter sido eu! Eu tenho muitas dessas calças e também caminho no parque. Você já pensou que poderia ter sido eu a acusada de não me preservar? Eu também tenho bumbum bonito, porém não autorizaria que o filmasse. O que esse homem fez é crime. Ele a filmou e compartilhou o vídeo sem o consentimento dela.

A conversa entre o casal terminou ali. Contra fatos não existem argumentos.

A verdade é que mais da metade dos vídeos compartilhados nos grupos masculinos não têm a autorização de suas protagonistas. Os razões mais comuns para que um vídeo com conteúdo sexual seja compartilhado são: a vingança e falta de caráter. Homens costumam se vingar de ex-parceiras exibindo-as em momentos sexuais. Mulheres traídas são algozes das mulheres expondo o que encontraram no aparelho celular dos maridos ou namorados. Homens sem caráter algum; machistas e inseguros em sua sexualidade compartilham vídeos que faziam parte do que acontecia “entre quatro paredes” ou de mulheres desejáveis talvez porque nunca as terão como parceiras sexuais.

Todos nós sabemos que muitas mulheres ganham a vida de prostituindo e a internet tem sido um bom meio de divulgarem seu trabalho. Nada contra. Estão mostrando seus corpos e consentindo que seus vídeos e fotos se disseminem feito vírus nos aparelhos celulares dos homens. O crime acontece quando a filmagem e/ou compartilhamento são feitos sem consentimento. Não importam as razões, é crime. E se você ainda tem dúvida sobre isso é só se lembrar do compartilhamento desenfreado das fotos do corpo do cantor Cristiano durante a preparação para o funeral.

O machismo é como pele para muitos homens e, na maioria das vezes, porque eles são inseguros e mal resolvidos em sua vida sexual. As vistas grossas feitas pela sociedade às atitudes assim é nociva a todos nós. Não somos nós mulheres que temos que nos preservar e usar talvez um calção de futebol masculino ou uma burca para caminharmos nos parque sem sermos filmadas. São vocês homens que tem que nos respeitar e entender que ao usarmos um biquino ou uma roupa de ginástica, não estamos lhes autorizando a nos filmar e nem tampouco a compartilhar o vídeo.

O que fazemos na cama e com quem fazemos é problema nosso. Escolhemos os nossos parceiros assim como vocês e temos direito ao mesmo respeito. O fato de uma mulher caminhar pelo parque usando calça de ginástica não significa que ela não está se preservando nem deixando de se dar ao respeito.

As burcas são utilizadas por mulheres muçulmanas. Acredito que nos dias de hoje eu não precise promover a reflexão sobre isso. A maldade e a malícia estão nos olhos de quem vê. Se você ainda não se convenceu, lembre-se que poderia ter sido eu ou que poderia ter sido a sua filha.

Em um mundo cujas relações estão sendo tão movidas por Tinder, Snapchat e nudes, se eu puder deixar um pedido a vocês mulheres eu deixo estes: Se relacionem com confiança. Criem vínculos. Lembrem-se de que sexo é algo muito bom quando se pode relaxar por estar segura de que aquela foto ou aquela performance vai ficar entra as boas e velhas quatro paredes.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...



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