A insustentável leveza da morte

Com alguma atenção é possível cismar que o mais assustador sobre a morte seja a reação daqueles que ficam. Uma pessoa passa a vida inteira quase esquecida, rodeada por um círculo exíguo de amigos, um artista é pouco reconhecido, tem lá os seus bocados de fãs fiéis, ou ainda, uma pessoa é isolada, solitária e criticada na maior parte do seu tempo vivido. Poderia descrever aqui “N” situações de pessoas que, enquanto em vida, não receberam o mesmo suporte ou a mesma atenção que despertaram no momento da morte.

De que vale uma homenagem, a atenção ou o afeto para um morto afinal? Independentemente de existir alma ou qualquer outra coisa, creio que uma vez que o corpo vai, vai com ele todo o valor do que quer que fosse que fizesse sentido “por aqui”. Deixar ir… não é que homenagens não sejam belas, necessárias ao luto nosso, mas são necessárias ao luto nosso, é um consolo para quem fica e de nada vale para quem partiu, e mesmo que valha (vai da crença de cada um), por que não valorizar as pessoas enquanto elas estão entre nós?

Morte
“Bem. Eu penso que parte disso são, provavelmente, contrastes. Luz e sombra. Se você nunca teve maus momentos, como você sabe que teve bons momentos? Mas, outra parte é apenas: se você vai ser humano, vem um monte de coisas no pacote. Olhos, um coração, dias e vida. No entanto, são os momentos que iluminam isso tudo. Os momentos que você não percebe enquanto os está vivendo… é isso que faz o resto valer a pena.” (Morte – HQ Sandman – Neil Gaiman)

A morte é quase sempre tratada como um grande espetáculo, com direito a performances acrobáticas da hipocrisia. É o momento em que todos se abraçam em memória do morto, de que todos os erros e defeitos do defunto são apagados. A absolvição, o reconhecimento e o amor, talvez tão desejados pelo falecido quando vivo, se convertem em rosas para adornar um caixão. Qual é o problema com as pessoas que decidem valorizar alguém justamente quando não há nada que possa ser feito por ele?

Dizem que a morte é a única coisa sobre a qual não há nada que possa ser feito. E talvez, justamente por isso seja tão fácil amar um morto. Não é necessário se responsabilizar pelo que sente por ele, não há cobranças, não haverá ações que coloquem em dúvida a sua devoção, não haverá decepções, não haverá discussões nem contratempos: a morte por si só dá conta de tudo, agora a culpa é toda da morte e por isso todos podem ficar em paz entre si. Rituais a parte, a morte nos convida a uma reflexão maior do que levar a “culpa” pelo que não foi ou automatizar um ato de beatificação do que se foi. Seja lá o que for: foi. Ela nos convida a uma reflexão sobre a vida, essa que é dura!

A morte nos pede coragem em assumir a vida – em assumir amor sem expectativas de que ele será recebido de uma forma passiva e idealizada, em assumir devoção mesmo diante dos defeitos, em assumir relações mesmo com contratempos, em estar presente ou de ausentar-se mesmo, sem culpa, tão sem culpa que não irá também buscar redenção através de votos lamuriosos embalados em um funeral. A morte nos pede coragem para viver sem saber o que será amanhã, e ainda assim, viver com gosto, apreciando cada momento e, como parte do “pacote”, as pessoas que escolhemos como elementos desse viver.

A vida importa. É enquanto ela corre que é possível fazer alguma coisa. Por que não homenagear pessoas vivas, enquanto elas podem usufruir de toda a afeição e reconhecimento? Por que não abraçar pessoas vivas, declarar os sentimentos, chorar à vista para rir a prazo, celebrar o ar que entra e sai dos pulmões? Por que não se responsabilizar pela sua atitude diante do que é em vez de lamentar o que jamais voltará a ser?

Não se trata de abandonar a memória e os afetos pelos que se foram, mas em ter nestas memórias a lembrança dos mesmos afetos doados em vida. Fazer na despedida a última homenagem e não a primeira, diante da derradeira partida.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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