A “Ilha das flores” e o casamento gay nos Estados Unidos

Quando menina, eu vi um documentário de que jamais me esquecerei: “A ilha das flores”. Era a história de um tomate. O tal tomate possuía algum defeito que o fez ser jogado no lixo. Fora encontrado por um cuidador de porcos e novamente rejeitado, voltando a ser jogado no lixo. O tomate é, então,  encontrado por uma criança, em um lixão a céu aberto. E assim, o tomate que foi jogado fora por ser imprestável, que foi rejeitado como inservível aos porcos passa a ser a sagrada refeição daquela criança.

Eu sempre fui uma pessoa inconformada. Minha face serena e meus olhos doces camuflam tempestades interiores. Mares revoltos, gritos silenciados, dores petrificadas desde os primórdios da minha existência. Ver um vídeo como esse, aos 10 anos, causou-me e ainda causa intenso sofrimento.

Doía-me mais porque eu bem sabia que aquela história não era fruto da mente criativa do produtor do filme. Na escola em que eu estudava, pública e da periferia de uma cidade interiorana deste nosso Brasil, a merenda escolar não servia apenas aos alunos. Após o nosso lanche, entrávamos para a sala de aula e, no portão, forma-se uma longa fila. Eram os irmãozinhos, crianças abaixo da idade escolar, que aguardavam para, caso sobrasse lanche, também comerem.

Hoje contemplei algo que me fez recordar de todas essas histórias. Pessoas de todo o mundo celebraram o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos. Cada qual celebrou a seu modo e, no Facebook, colocando as cores do arco-íris na foto de perfil. Alguns, discordando da referida celebração, utilizaram a foto de uma criança africana esfomeada, também nas cores do arco-íris, com o seguinte dizer: “O dia que a nação se unir por essa causa, me chama que eu quero participar”.

Por vezes acho que a hipocrisia e a vileza humana são imensuráveis. Esses indivíduos que, em sua maioria, se autoproclamam “cristãos”, expõem a nudez cadavérica de uma criança como disfarce da homofobia de que são porta-vozes, sem pensar na dor e na fome que vitimam essa criança. Sem pensar na morte que lhe bate à porta, sem se colocar em seu lugar, sem ver a pequenez do seu próprio coração diante daquela cena e diz: “me chama que eu quero participar”. Como assim: “Me chama”?

São centenas e centenas de campanhas mundiais contra a fome, contra a desnutrição e de prevenção à mortalidade infantil. São milhares de ONGs que se dedicam a esse propósito. São inúmeras as instituições religiosas que se dedicam a isso. Há programas governamentais que visam exatamente à erradicação da miséria e da fome e a pessoa vem dizer que quando houver essa mobilização devemos chamá-la?

Eu faço aqui um desafio. Aposto que a maioria desses que postaram a foto da criança esfomeada é contra os programas governamentais de combate à fome. Afinal, a hipocrisia pseudo cristã é de grandeza infinita.

Num mundo onde porcos, não raro, são melhor alimentados que muitos humanos, ainda há religiosos que asseveram que a divindade se ocupa de orifícios penetráveis e não penetráveis, de amores abençoados e abomináveis, da existência de filhos e de meras criaturas. Talvez esse deus tenha mandado aos seus que estes amassem o próximo, mas não muito. Mas não sempre. Que amassem apenas quando lhes conviessem, como, por exemplo, quando estivessem despeitados pela alegria dos “hereges e abomináveis gays”.


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Nara Rúbia Ribeiro
Escritora, advogada e professora universitária.



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