A fofura dos ódios e a obsolescência dos pensamentos

Na sua coluna de 17/08/2015, na Folha de São Paulo, Luiz Felipe Pondé propõe a hipótese de que, para o que ele chama de intelligentsia, existe a distinção entre ódios, o ódio fofo e ódio não fofo.

Como o problema é sempre o outro, o Pondé atribui ao time adversário a hipocrisia da clássica imagem dos dois pesos e duas medidas, mas o texto dele acaba servindo mesmo só para duas coisas: para que seja aplaudido por aqueles que já concordam com ele e para que seja vaiado por aqueles que sempre discordam. Se fosse em outros tempos, seria só mais um texto para ser lido e descartado, incapaz de fazer brotar uma dúvida ou um questionamento qualquer. Mas nesses dias binários em que passamos boa parte da vida nas redes sociais, um texto como esse encontra uma sobrevida e uma terceira função: ele se transforma em munição. Para comprovar, é só ver como ele é usado nas postagens de Facebook, onde ele será respondido com a postagem de um texto do Gregório Duvivier, que por sua vez será respondido por um texto do Rodrigo Constantino, que será respondido por um do Vladimir Safatle e por aí vai, sem que se pense realmente sobre as ideias apresentadas. E quando eu digo pensar, é no sentido de se analisar criticamente o que está sendo colocado em questão nestes textos, ao invés de só buscar ali as ideias que venham confirmar as que já temos.

A coluna saiu no dia seguinte à manifestação onde foi possível ver uma senhorinha fofa segurando um cartaz nada fofo, que lamentava o fato de que a Dilma não foi enforcada quando os militares tiveram a chance. Essa imagem, postada por alguém de esquerda, vai ser respondida por alguém de direita com a imagem de um Black Boc destruindo uma concessionária em um protesto passado, que por sua vez vai ser respondida com uma foto do Bolsonaro acompanhada por uma declaração qualquer dele, e assim, novamente, indefinidamente.

Parece um FlaxFlu que acontece em um estádio onde uma torcida não consegue ver a outra, já que as duas estão sentadas atrás de paredões que também não permitem ver o campo onde o jogo acontece. Da torcida adversária, as pessoas só conhecem os gritos mais fortes que conseguem atravessar de um lado para o outro. Do jogo, elas só sabem o que acontece pela narração que chega dos radinhos de pilha. A partir dos gritos que ouvem e da memória do que viram de longe, antes de entrar no estádio, alguns vão criando as imagens que retratam a torcida adversária e as vão passando para frente, como se fossem verdades absolutas. Nesse cenário, não é difícil que apareça a hipótese de que a torcida do Fla se vista de verde ou que a do Flu se vista de amarelo. Tudo só depende do poder de argumentação de quem passa a notícia para frente.

O que fica dessa batalha, assim como da própria coluna do Pondé, é uma generalização que não faz mais sentido hoje em dia, onde conceitos obsoletos já não dão conta do que é a realidade há muito tempo. Muita gente parece que não percebe que não dialogam mais com pessoas, mas com estereótipos. É só ver o nível das trocas de acusações em épocas mais quentes, como dias de eleição ou de manifestação.

Quem está à direita, imagina que está falando com um hippie de boina que defende a implantação do bolivarianismo no país, brandindo a ameaça do Foro de São Paulo que nos transformará em Cuba ou Venezuela.

Quem está à esquerda, imagina que está falando com um reaça de cashmere que defende a implantação do militarismo no país, brandindo a ameaça da privataria que nos alugará para os Estados Unidos ou grandes corporações.

E entre um estereótipo e outro, o que é que existe? Pessoas reais, que pensam e que questionam os modelos e as próprias definições de esquerda e direita, definições mais ultrapassadas que usar “burguês” ou “comuna” em uma conversa séria. Ou “intelligentsia”.

A coluna do Pondé é parcial, tem um lado e ele não esconde. Ele veste a camisa do seu time e faz a sua defesa, acreditando sempre que a melhor defesa é o ataque e não poupando o time adversário. Até aí, isso não seria nenhum problema, defender o que se acredita é importante, mas dá para fazer de uma forma leal, com um mínimo de fair play padrão FIFA. E isso não acontece quando se recorre exatamente a uma generalização ou se faz uma análise pobre e superficial de um assunto sério, se limitando a atirar frases de efeito que podem ser usadas como provocações em posts. O que, aliás, mostra que ele entendeu como o jogo das redes sociais funciona, ainda que mesmo aí ele se limite a alimentar uma fogueira que já está queimando.

Só para deixar claro, um colunista de esquerda, que se utilize desse mesmo expediente, também merece as mesmas críticas. Se tem uma coisa que a gente precisa é elevar o nível dessa discussão e começar a conhecer mais o outro, ou melhor, os outros. Precisamos mesmo começar a afofar os ódios e entender que isso não é um FlaxFlu, é um campeonato inteiro, com vários times. O Pondé anuncia na coluna o surgimento de uma nova direita, uma direita que se for como ele descreve, será muito bem-vinda e que precisa ser mais conhecida e ouvida. O problema é que mergulhado na superficialidade, ele não vê ou opta por não ver que aquilo que ele chama de esquerda é muito mais multifacetado do que um grupo que se move de acordo com uma cartilha pré-estabelecida no século XIX ou que possui uma ideologia que se adquire em pacote fechado. É esse tipo de pensamento obsoleto que se precisa combater, tanto à esquerda, como à direita.

E podemos também por a culpa nos rótulos, que já não dão conta dos conteúdos que identificam. Mas essa é outra história.

COMPARTILHE
Fabio Brandi Torres
Nasceu 15 dias antes da chegada do Homem à Lua e é dramaturgo, roteirista, tradutor e produtor, mas conforme a ocasião, também pode ser operador de luz, de áudio, bilheteiro, administrador e contrarregra, ainda que não tenha sido camareiro, mas por pura falta de oportunidade. Questão de tempo, talvez, já que quando se faz teatro por aqui, sempre se cai na metáfora futebolística do bater escanteio e correr pra cabecear. Aliás, se aposentou do futebol na década de 80, quando morava em Campos do Jordão, depois de uma derrota por 6×0 para o time de uma escola adversária, cujo nome não se recorda. Ele era o goleiro.



COMENTÁRIOS