A despedida

Por Carolina Vila Nova

Até hoje o adeus mais dolorido da minha vida havia sido o de outro. Assistir ao meu filho se despedindo de seus amigos; todos; em choros incontidos, foi onde aprendi que o adeus de outrem podia doer ainda mais do que as minhas próprias despedidas.

Carrego comigo a dor que tantos também carregam. O conhecer e conviver com pessoas que parecem fazer parte até mesmo do que somos e depois ir embora. Amigos de escola, faculdade, do trabalho e até mesmo parentes queridos como irmãos. A vida não parece permitir que simplesmente se escolha quem segue adiante com a gente ou não.

Percorremos nossas vidas em caminhos singulares sem nunca saber quem encontraremos pela frente e quem acabaremos deixando para trás. E mesmo com toda a tecnologia a nosso favor, nada substitui o se ter por perto o sorriso e a voz daqueles que gostamos: o riso na hora do constrangimento, o choro ou a raiva em um momento inesperado, as palavras certas no momento de necessidade, a energia daquele que nos levanta.

Quem nunca deixou um amigo para trás? Quem nunca mudou de cidade e sofreu a falta daquele amigo (a) que tinha todos os dias ao seu lado? Quem nunca sofreu o gostar de alguém que mora tão distante?

Sempre fui uma pessoa de sorte. Tive grandes amigos em todos os lugares por onde andei. E como uma andarilha da vida moderna, nunca parei em lugar algum. Talvez seja o preço a se pagar pelo descobrir o mundo. Descobrimos também pessoas. E somos obrigados a deixá-las em algum instante, aprendendo obrigatoriamente a arte do desapego, daquilo que mais nos toca como seres humanos: o amor que vem com afinidades, por aqueles que nos enxergam por dentro, por baixo de todas as cascas.

E hoje, mais uma vez, uma despedida se inicia. Não de um, mas de muitos. Uma mudança de trabalho. Dois anos de convivência, conquistas, confiança, risos e histórias. Um dia-a-dia cheio de alegria, que agora deixo para trás. Uma amiga chorou, enquanto a outra se conteve. E eu disse: “Vocês estão perdendo a mim, uma pessoa. Eu estou perdendo todos vocês!”, me referindo às dezenas de pessoas que se tornaram mais do que simples colegas de trabalho.

Mais uma vez, mesmo sabendo que toda mudança trás novas pessoas, novos aprendizados e perspectivas, tive que sentir na pele, a dor da despedida de amigos. Em contagem regressiva de cinco dias, temo o passar do tempo em lentidão, tornando o adeus mais longo, ao mesmo tempo em que lamento os momentos finais.

Ainda que carregue em mim o sorriso de tantos que passaram pela minha vida, a gratidão pela amizade e carinho que recebi, nada pode me fazer ignorar o que sinto.

Não deixo apenas um trabalho e histórias para trás, mas dezenas de sorrisos, que me acompanharam nos últimos dois anos. Anos em que eu mesma fui muitas.

Deixo para trás as vozes e os tantos “bom-dias” que recebi, na esperança que os novos “bom-dias” sejam reconfortantes o bastante para compensar a dor de mais um adeus.

Para os que agora eu deixo, o meu mais profundo obrigada. Levo vocês comigo do meu jeito. Como eu posso.

Até mais ver!

a despedida

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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