2016: O ano da presença

Estamos no começo de um novo ano, um tempo em que mesmo que a vida continue a mesma, mesmo que a gente esteja no meio de um ciclo, mesmo que nada pareça estar se renovando para nós, mesmo que a rotina siga, e a única coisa que tenha mudado foi os últimos dois dígitos no calendário, este é um tempo que me traz um aviso, uma lembrança e faz despertar a pergunta: que intenções eu coloco neste novo ano? E esta pergunta poderia me acompanhar durante todo o ano (se eu me lembrasse de olhar pra ela) e ela talvez signifique simplesmente algo do tipo: como eu quero sentir a vida? Como eu estou encarando o mundo?

Me lembro que no começo de 2015, ao me fazer essa pergunta, de coração aberto eu disse: neste ano novo eu quero menos! Quero menos correria, menos coisas, menos bagunças de sentimentos, menos grandes mudanças, menos pesos.

Tinha uma vontade de leveza nessa intenção, era o desejo de que a vida fosse mais calma, mais bonita, num ritmo mais lento. Eu queria desacelerar para poder deixar outros ritmos e verdades fluírem.

Ainda acho essa intenção bonita e válida, às vezes a gente precisa disso mesmo.

Mas, neste começo de 2016 a minha intenção é outra:

Neste ano novo eu quero tudo! Quero tudo o que a vida tem para me oferecer e quero estar aberta e inteira. Não quero prever nada, planejar, me prevenir, me pautar nos medos para assegurar minha alma, para evitar quedas e danos. Quero estar aberta para o que der e vier, pronta ou não, mas cheia de vontade de sentir, aprender, evoluir, chorar, sorrir, viver. Aberta para olhar nos olhos das levezas e dos pesos. E cheia de entusiasmo para receber as surpresas que me esperam, mas também cheia de serenidade ao imaginar os momentos de alívio e calmaria.

O que eu quero me propor é que independentemente das dores, dos percalços, dos sustos, dos cansaços, dos excessos, das dúvidas, das frustrações, da solidão, que eu saiba lidar com amor sempre.

 

Que eu saiba olhar com doçura e absolvição para as pessoas, sabendo que elas são antes de tudo humanas e não heróis ou vilões. Que eu saiba receber as dificuldades com paciência, força e otimismo, e consiga olhar de fora e entender o sentido maior de tudo.

Que eu saiba não me culpar e não culpar ninguém, nem mesmo o destino. Que eu encontre alento nos meus próprios braços e que eu saiba me dar um banho morno, uma tarde de sono, um choro derramado. Que eu saiba também deitar num peito, entregue, sem me preocupar que horas são.

Que eu consiga ouvir uma música sem fazer mais nada ao mesmo tempo, talvez apenas cantar junto. Que eu saiba identificar e aproveitar ao máximo as belezas e as alegrias que me pousam. Que eu mate as saudades nas presenças sem o medo do que será ou deixará de ser o futuro.

Que eu solte as risadas mais livres, mesmo com aquela lista de problemas a serem resolvidos no dia seguinte. Que eu aprecie uma boa companhia, um prato de comida, um livro de poesia, e enquanto faça isso, que eu me esqueça do mundo.

Que eu solte minhas feras num banho de mar e volte a encontrar meus passarinhos.

Porque tudo flui melhor e a vida faz mais sentido quando a gente aprende a ser sensível à flor da pele, aberto para o mundo e ao mesmo tempo desenvolve suavidade no olhar.

Que eu me reconecte com a amplitude da vida e que essa seja minha alegria, porque não há delícia maior do que estar pronta para querer tudo e ao mesmo tempo não saber de nada.

Que assim seja! 🙂

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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