14 séries com roteiros surpreendentes

A rápida ascensão do consumo de séries de TV mostra que os serviços streaming atendem à demanda mais desejada para esse tipo de produto. O cliente escolhe o que, quando e como assistir, em vez de torcer para que uma programação aleatória e mal planejada sirva a seus interesses culturais de momento.

Menos gente têm suportado a chatice, previsibilidade e falsidade das novelas brasileiras, que pouco ou nenhum compromisso com a realidade têm. Os roteiros até variam, mas as mensagens transmitidas são basicamente as mesmas e no final os espectadores terão todas as respostas que procuram, o que no mundo real está longe de acontecer.

Na internet, há mais listas com indicações de séries do que séries para indicar. Como se não bastasse, aqui está mais uma, com a promessa de ter sido preparada com carinho.

As 14 séries a seguir são dignas de maratonas e fortíssimas candidatas a entrar num hall da fama de conteúdo televisivo, se já não estiverem. Algumas foram finalizadas, outras canceladas antes do previsto, outras ainda estão em exibição. Vamos a elas:

Hannibal (2013 – 2015)

Os amantes de psicologia têm em Hannibal um vasto repertório de conceitos interessantes para discorrer em suas rodas de debate. Baseada no livro Dragão Vermelho, de Thomas Harris, a série é, seguramente, a melhor adaptação audiovisual sobre o famoso psicopata canibal. A performance artística formidável de Mads Mikkelsen como Hannibal Lecter fez muitos em Hollywood se esquecerem de Anthony Hopkins. Os diálogos são inteligentes e envolventes, e a mente do espectador se vê compelida a penetrar na dos atores com intensidade.

The Borgias (2011 – 2013)

Imperdível para quem gosta de séries históricas. A narrativa é centrada nas engenhosas, mas imorais artimanhas políticas de uma das famílias mais poderosas do Renascimento, os Borgia. Intriga, manipulação, luxúria, corrupção, guerra e superstição marcaram fortemente aquela época em que a Igreja se sobrepunha ao Estado. A influência dominante do então Papa Rodrigo Borgia (Alexandre VI) encontrou fortíssimas resistências dogmáticas, inclusive dentro do próprio círculo religioso, o que fez toda a sociedade inflar por revoluções radicais nas esferas política, cultural e econômica. Interessante do início ao fim.

Black Mirror (2011 – atual)

A série é conhecida pela distopia crítica e veia humorística negra no tratamento de teses de ficção científica que, hoje, estão mais perto de se concretizar do que em outrora. O avanço imparável da tecnologia oferece inspiração em abundância para os roteiristas. Muitas pessoas têm certeza que os contos futuristas narrados em Black Mirror são profecias fidedignas. Os episódios não são complementares e podem ser vistos aleatoriamente; todos eles captam a atenção das máquinas, quer dizer, das pessoas e mostram possíveis consequências da evolução tecnológica desenfreada para a saúde da humanidade. O entretenimento na tecnologia tem sido utilizado como poderoso instrumento de controle das massas e devastação em larga escala. Esse vício de estar conectado em dispositivos eletrônicos acarreta em efeitos colaterais indisfarçáveis. A sociedade do espetáculo de Guy Debord foi bem adaptada para a TV.

O Nevoeiro (2017 – atual)

Das séries baseadas em obras de Stephen King, esta merece o maior crédito. Apesar de pecar nos quesitos fotografia e efeitos especiais, o que importa é a alta densidade da trama. As obras do escritor americano são repletas de mensagens profundas, mas a grande maioria dos roteiristas as propaga de forma superficial. O nevoeiro é a metáfora para o medo irracional do desconhecido – morte, religião, liberdade, eternidade – que diferencia o ser humano do resto dos animais. Quando o homem é cegado pelo terror, seu bom senso se transforma na substância da loucura. Atuações extraordinárias não se verá, apenas – e é o suficiente – como o comportamento coletivo condiciona-se, quer queira quer não, pelas leis empíricas da natureza.

Bates Motel (2013 – 2017)

Tendo Alfred Hitchcock escrito e dirigido o filme Psicose em 1960, várias adaptações foram feitas, com destaque para Bates Motel. A série narra como Norman Bates, jovem com distúrbio dissociativo de identidade e complexo de Édipo, regride de ser humano a monstro. O ator, Freddie Highmore, tem sido muito elogiado por seu desempenho.

Penny Dreadful (2014 – 2016)

Penny Dreadful explora as origens e características mentais de personagens de terror clássicos da literatura, como Van Helsing, Dorian Gray, Dr. Jekyll, Drácula e Frankestein. Enredo permeado de fantasia, cenários e figurinos vitorianos e uma atmosfera de suspense.

Dexter (2006 – 2013)

Dexter (Michael C. Hall) trabalha no departamento policial de Miami e sua função é servir a lei, mas o problema é que ele segue um código de conduta individual e personalizado. Os seres humanos não têm um senso organizado de justiça, e aí está o motivo de tamanha atenção direcionada à série. O público se atrai por vilões com déficit de caráter, talvez porque na vida real falha-se muito em identificar quem são os verdadeiros heróis. O fato do desfecho de Dexter ter sido decepcionante não elimina a boa avaliação geral de seu conteúdo.

Vikings (2013 – atual)

Todos os interessados em mitologia nórdica são atraídos por essa série produzida pelo canal History. O universo primitivo dos vikings oxigenava-se em adrenalina e selvageria. Aqueles seres pareciam viver sem medo algum. A guerra era seu entretenimento, e o tédio se resolvia com violência, carne, cerveja e sexo à vontade. O criador da série é o estudioso de história medieval Michael Hirst, que também se responsabilizou por parte do conteúdo de The Borgias, The Tudors e Camelot, entre outras produções.

Breaking Bad (2008 – 2013)

O que se destaca aqui é o argumento-chave do roteiro. Um professor de química e pai de família devotado descobre que está com câncer em estado terminal. O que ele faz? Entra no submundo criminoso do tráfico de drogas para enriquecer rapidamente e deixar a família em boas condições financeiras para depois que ele morrer. Se o modelo tradicional familiar é, em teoria, o exemplo mais clichê de moralidade, o argumento foi uma ótima tacada.

Sherlock (2010 – atual)

Benedict Cumberbacht encarnou Sherlock Holmes com tanta personalidade que, se Arthur Conan Doyle estivesse vivo, ficaria orgulhoso do que fizeram com sua invenção. A BBC parece ser a emissora ideal para transmitir esse tipo de série. Vale a pena mergulhar nos casos criminais de complexa resolução e na velocidade de raciocínio do mais icônico detetive do mundo.

Homeland (2011 – atual)

Trama cativante sobre confrontos geopolíticos envolvendo fanatismo religioso. A protagonista, Carrie, motiva-se de um grande senso de dever e patriotismo para com sua nação, mas os distúrbios psiquiátricos prejudicam severamente sua capacidade de juízo racional e, por tabela, a eficiência no trabalho. Prato cheio para quem gosta da temática de guerra aplicada a um contexto social moderno.

Orange Is The New Black (2013 – atual)

Mulheres infratoras, cheias de hormônios pululando e com muitas histórias dramáticas na cabeça precisam se unir para sobreviver em uma penitenciária feminina administrada por autoridades machistas. O passado sombrio das detentas e o choque entre culturas divergentes faz de suas revoluções libertárias um desafio para a disciplina que tanto almejam restabelecer em suas vidas. A roteirista, Jenji Kohan, usa e abusa de jargões e frases de efeito nos diálogos para transmitir visões de mundo inquisidoras. Uma série convidativa para as feministas comprometidas com sua causa, e um choque de realidade para os homens que desejam rever condutas que condizem a uma sociedade patriarcal agudamente preconceituosa.

Oz (1997 – 2003)

Os fãs de Prison Break têm grandes chances de gostar de Oz, antiga série da HBO que retrata as histórias alarmantes dos detentos da penitenciária de segurança máxima Oswald. Lá dentro, todos lutam contra seus pecados capitais e possuem motivos infinitos para confissão. Uns estão preocupados com dinheiro, outros em manter-se drogados, outros em matar quem lhes comprar inimizade, outros em estuprar, outros em voltar para o seio da família, e um punhado já desistiu de reaver a tão sonhada liberdade perdida muito antes do encarceramento.

Game Of Thrones (2011 – atual)

O fato de ser impossível assistir todas as séries de TV já produzidas no mundo – até por limitação de tempo e critérios de gosto – não atrapalha a opinião que aqui será registrada: Game Of Thrones possui uma qualidade de produção em todos os aspectos tão espetacular que nenhuma outra série ameaça ou ameaçará seu império. Esse privilégio absoluto se deve em especial ao trabalho da vida do gênio George R. R. Martin, que, há de se convir, só não é o pai da literatura fantástica porque Tolkien nasceu antes dele. Realismo na série é gritante, e o fator surpresa característico faz com que todas as teorias imaginadas não passem de hipóteses duvidosas. Os personagens são muitíssimos bem arquitetados e, se há buracos na trama, ou eles serão preenchidos ou nunca existiram senão na cabeça de quem os criou.

*Com informações do IMDb

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Eduardo Ruano

Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.


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