12 filmes psicológicos para entender mais sobre relacionamentos abusivos

Eu acredito muitíssimo na capacidade terapêutica do cinema. Se antes contávamos histórias ao redor da fogueira, hoje nos empoleiramos em torno de uma tela para compartilharmos experiências, reais ou fictícias, contadas por atores e diretores.

Um bom filme pode ensinar muito quando falamos de saúde emocional. Hoje existe até mesmo um projeto espanhol, o Medi-Cine, criado pela terapeuta Mercedes Martínez Moreno, cujo intuito é tratar a saúde psíquica através de filmes. Mercedez não receita remédios, ela receita histórias para seus pacientes. E o tratamento tem sido fortuito.

No Brasil ainda não há um projeto parecido, mas felizmente através da internet podemos encontrar dicas que nos ajudam a pontuar determinados assuntos. Particularmente, quem acompanha meus textos, sabe que eu gosto de abordar diversas questões falando de filmes.

Para esse artigo selecionei 12 filmes que tratam de relacionamentos amorosos abusivos ou tóxicos. Muito se tem falado hoje sobre o que duas pessoas podem promover de bom ou de ruim na vida uma da outra. E aqui eu escolhi listar principalmente filmes que mostram relações cuja violência, não explícita, se revela aos poucos, principalmente no âmbito psicológico, sem excluir, no entanto, filmes que mostram a gradação da violência psicológica para a física.

Muitas vezes a violência psicológica é tão brutal quanto a física. Na violência psicológica a vítima, homem ou mulher, é agredida através de insultos constantes, ameaças de morte ou de algum outro mal. Sofre com a privação de contato com amigos e familiares ou até de recursos materiais. Recebe ameaças dirigidas aos filhos e tem comumente seus bens pessoais destruídos. A vítima em uma relação assim pode ser duramente criticada sobre seu desempenho no trabalho ou na vida íntima, inclusive sendo caluniada e difamada. Muitas vezes, ela é até mesmo impedida de sair de casa ou trabalhar.

As vítimas de qualquer tipo de violência devem procurar a delegacia da mulher e assistência jurídica. No entanto, acontece muitas vezes da vítima não se dar conta de que está efetivamente em um relacionamento abusivo. É nesse ponto, na identificação de padrões muito frequentes em abusadores e agressores, que essa lista pode ser de grande valia.

Seguem então 12 indicações de filmes sobre relacionamentos amorosos abusivos. Muitos estão na Netflix, mas lembro aqui que sugestões são sempre bem-vindas:

1 – À meia luz, 1944

O roteiro desse filme é baseado na peça teatral de Patrick Hamilton, e conta a história de Paula Alquist, sobrinha de uma famosa cantora de ópera, e Gregory Anton, pianista e futuro esposo de Paula. Após o casamento, Gregory passa a torturar psicologicamente sua jovem esposa, fazendo-a acreditar que está enlouquecendo. Esse filme certamente não agradará a todos, no entanto seu título original “Gaslight” deu origem a um termo muito difundido na psicologia desde 1960, o “Gaslighting” que diz respeito ao abuso psicológico no qual informações são distorcidas ou seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.

2 – Dormindo com o inimigo, 1991

Martin Burney é um homem de boa aparência, bem-sucedido e sedutor, porém, após o casamento, ele se mostra um marido compulsivo, ciumento e violento que apavora sua esposa, Laura. Durante uma noite tranquila na qual os dois estão velejando com um conhecido, acontece uma tempestade, e a jovem aproveita para simular um afogamento e desaparecer. Esse filme é emblemático e tem Júlia Roberts no papel da protagonista. Martin trata Laura como um objeto cuja única função é satisfazê-lo quando, como e onde ele quiser. Notem que ao tomar ciência da situação em que vive, Laura se prepara em segredo para poder escapar e viver longe do seu algoz. Na Netflix.

3 – O piano, 1993

Esse filme retrata a sofrida trajetória de Ada McGrath, uma mulher que não fala desde os seis anos de idade e que se muda para a Nova Zelândia recém-colonizada. Em companhia da filha, ela conhece o futuro marido, Alisdair Stewart, o qual não parece ter, assim como ela, grande sensibilidade. Para piorar a situação, ele recusa-se a transportar o piano de Ada, que é não só sua paixão, mas também a sua voz. Nesse filme fica evidente que o marido não deseja compreender Ada. Ela, que é “muda”, perde completamente o poder de se comunicar sem o piano e é vista pelo marido como uma pessoa esquisita. Ada sofre inúmeras agressões, psicológicas e físicas, vê sua liberdade de sair de casa cerceada, e tem até mesmo sua integridade física maculada.

4 – Retrato de uma mulher, 1996

Em 1872 a americana Isabel Archer herda 70 mil libras. Ela resolve então viajar para a Europa onde recebe inúmeras propostas de pretendentes, contudo ela recusa todas, pois deseja ser livre. Em certo ponto Isabel, desatenta, é convencida pela ambiciosa Madame Serena Merle a conhecer Gilbert Osmond, um colecionador de arte que a seduz maliciosamente. Isabel se casa com Gilbert e só então descobre que ela é só mais uma peça na trama diabólica de Osmond e Madame Merle para roubar sua fortuna. Esse filme tem um elenco maravilhoso, com Nicole Kidman como Isabel e John Malkovich como Osmond. Aqui a personagem de Nicole vai sendo envolvida em uma trama que mais parece uma imensa teia de aranha da qual ela se sente sozinha e incapaz de escapar. Fiquem atentos à cena na qual Isabel caminha ao lado da filha pequena de Osmond. Em certo ponto a menina estanca, e questionada por Isabel ela menciona que o pai não a deixa passar daquele ponto. Ou seja, mesmo quando não está por perto, o poder de manipulação de Osmond é evidente.

5 – Onde mora o coração, 2000

Novalee Nation (Natalie Portman), tem 17 anos, está grávida e nunca teve uma família de verdade. O mais próximo que ela chegou disso foi viver com o namorado narcisista, Willy Jack (Dylan Bruno), com quem decide viajar para a Califórnia. Quando chegam em Oklahoma eles fazem uma parada para ela ir ao banheiro, mas, quando Novalee retorna, não encontra mais Willy, que fugiu. Sozinha e sem nada, exceto uma máquina fotográfica, Novalee ronda uma loja da rede Wal-Mart, onde fica até o bebê nascer. Na trama o namorado de Novalee a humilha constantemente, prestem atenção na forma como ele a trata principalmente dentro do carro, no começo do filme. Willy volta a aparecer no meio da trama como um cantor de sucesso que canta, pasmem, declarações de amor e carinho. Aqui temos a figura de um homem que parece o que não é e uma mulher que redescobre seu valor. Na Netflix.

6 – Garçonete, 2007

Jenna (Keri Russell) trabalha como garçonete e sonha em juntar dinheiro suficiente para largar Earl, seu marido prepotente e controlador. Ela possui o dom de fazer tortas especiais, as quais são inspiradas pelos problemas e circunstâncias da sua vida. Entretanto, uma gravidez inesperada muda seus planos. O marido de Jenna é extremamente abusivo, no entanto, ela aceita passivamente seu martírio até olhar para o rosto de seu bebê e não desejar para ele as coisas pelas quais ela passa cotidianamente. O nascimento do bebê desperta Jenna de sua letargia e ela encontra forças para sair da relação. O amor verdadeiro a fez perceber que aquilo que vivia no casamento estava longe de ser algum tipo de amor. Uma história supersensível. Não se enganem, parece uma comédia romântica, com um médico atencioso na trama, mas não é.

7 – Entre segredos e mentiras, 2011

Esse filme fala de David Marks (Ryan Gosling), um jovem bonito e problemático que conhece uma moça gentil e sonhadora, Katie Mars, (Kirsten Dunst). Iludida pelo passado do moço, que parece traumatizado pelo suicídio da mãe, Katie entra nessa história acreditando que o amor pode tudo. No começo, ela até mesmo convence o marido a montar com ela uma loja de produtos naturais, mas logo a família influente do rapaz trata de minar as esperanças do casal. Com o passar do tempo David vai se tornando cada vez mais agressivo e sua verdadeira personalidade vai se revelando. Esse filme é baseado em um caso verídico e mostra o martírio vivido por Katie até seu desaparecimento.

8 – Effie Gray, 2014

Essa é uma cinebiografia que conta a história da vida conjugal de um dos mais famosos críticos de arte da Inglaterra, John Ruskin, com uma jovem de 19 anos, “Effie” Gray. Ruskin não toca em sua esposa durante todo o casamento. Ele é indiferente aos sentimentos dela e não lhe demonstra qualquer estima. O homem parece não ter um traço sequer de empatia ou amor. Effie adoece por conta dos maus tratos psicológicos do marido e passa a ser tratada por Ruskin como uma pessoa de índole má, sem ter feito absolutamente nada para isso. Nesse filme as agressões psicológicas sofridas por Effie são severas. Na Netflix.

9 – In your eyes, 2014

Esse filme fala de Rebecca (Zoe Kazan), a esposa de um famoso médico e de Dylan (Michael Stahl-David), um ex-condenado buscando recomeçar a vida. Estranhamente os dois descobrem estar conectados telepaticamente. Eles podem conversar como se estivessem frente a frente. A partir desta ligação, Rebecca e Dylan começam um inexplicável romance metafísico. Fiquem atentos ao marido de Rebecca no filme. Ele a trata de forma autoritária, como se ela fosse uma criança. Em uma das cenas ele tira a bebida das mãos dela, em outra, descobrimos que ele tentou acabar com todas as fotos que mostravam a infância de Rebecca junto da família. Rebecca é tratada pelo marido como uma pessoa doente e incapaz e é levada a crer nisso por muito tempo. Na Netflix.

10 – Antes de dormir, 2014

Dia após dia, Christine Lucas (Nicole Kidman) desperta sem se lembrar de absolutamente nada que aconteceu em sua vida nos últimos 20 anos. Isto acontece devido a um acidente sofrido há uma década. Com isso, cabe ao seu marido Ben (Colin Firth) a tarefa de relembrá-la de sua vida, através de um mural de fotos e detalhes do passado. Além disto, ela passa por uma terapia sigilosa com o Dr. Nasch (Mark Strong), que procura incitá-la a ter lembranças sobre o que aconteceu. Só que, aos poucos, ela percebe que nem tudo é o que parece ser. Esse filme é quase uma metáfora e mostra que muitas vezes somos levados a crer em histórias sobre nós mesmos. Na Netflix.

11 – Grandes olhos, 2015

Essa cinebiografia conta a história do casal Walter e Margaret Keane, que ficou famoso no final dos anos 1950 e início dos 1960 pelos retratos de mulheres e crianças com olhos grandes. Tudo parecia ir bem na vida dos Keane, até Walter começar a ter fama e dinheiro às custas da mulher, que era a verdadeira pintora das obras. Esse filme mostra um casamento cujo marido começou a vida conjugal dizendo: Você é linda e talentosa, ao meu lado você terá o mundo. E terminou com um: pinte dezenas de quadros para tais datas que eu os venderei como meus e se disser algo será presa como cúmplice. Notem que Walter é um mentiroso contumaz que engana não só a esposa, mas também aqueles que assistem ao filme. Na Netflix.

12 – A garota do trem, 2016

Nesse filme a história é narrada especialmente por Rachel Watson (Emily Blunt), que afundada em um grande sofrimento causado pelo divórcio e pelo vício em bebida, mora de favor na casa de uma amiga. Ela viaja diariamente de trem e durante o percurso observa a casa do seu ex-marido Tom (Justin Theroux), novamente casado, enquanto remói culpas, remorsos e dúvidas. Fragilizada, Rachel desconfia da própria sanidade diante da incapacidade de cumprir padrões sociais. Paralelamente à solução do mistério do filme, ela se redescobre como mulher, aprendendo consigo mesma a se fortalecer. Tom, por outro lado se revela um vilão que sabe manipular muito bem as mulheres com as quais se relaciona através do “Gaslighting”. Técnica de abuso na qual a vítima é levada a crer que está perdendo a sanidade.

Extra: Série Jéssica Jones, 2015

Jéssica Jones (Krysten Ritter) leva a vida como detetive particular no bairro de Hell’s Kitchen, em Nova York. Traumatizada por eventos anteriores de sua vida, um relacionamento abusivo com um homem cujo grande poder era manipular as pessoas, ela sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Jéssica tenta fugir do passado, mas sente-se perseguida por ele. Ela percebe então que existe apenas uma saída: enfrentar seus medos e provar que é mais forte que o homem que a traumatizou no passado. Essa série é ficcional, pois trata de personagens com superpoderes, no entanto mostra de forma bastante contundente os desdobramentos causados por um período de grande desgaste emocional e físico ao lado de uma pessoa manipuladora e abusiva. Na Netflix.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

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