10 Grandes livros para leituras inesquecíveis

Talvez nenhum outro objeto nesse mundo tenha tanto poder de transformação quanto um livro. Os livros nos provocam, abrem cortes e fazem questionamentos importantes para nossa formação e desenvolvimento como seres humanos. Alguns deixam marcas indeléveis, enquanto outros cavam fundo na gente. Tão fundo que passam a fazer parte da nossa fundação, transformando-se em moradores perpétuos da memória.

A lista não está em ordem cronológica ou de predileção.

Baudolino (Record, 2001):


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Umberto Eco (1932-2016) tinha a incrível capacidade de não apenas contar bem uma história, mas de entrelaçar fatos históricos em suas narrativas de maneira inteligente. Em “Baudolino”, além de seguirmos os passos de um herói que tem como grande arma a engenhosidade, somos apresentados, através de uma escrita saborosa, a curiosidades da vida e da mentalidade na Idade Média. Seria exagero ligar o autor italiano à Escola dos Annales, mas o espírito de buscar novos tipos de abordagens contra o positivismo histórico me parece similar.

Sob o Sol de Satã (E Realizações, 2010):

sob_o_sol_sataAssim como Nelson Rodrigues, o francês Georges Bernanos (1888-1948) foi um investigador agudo e talentoso da alma e da moral humana. Mais do que isso, talvez ele tenha sido o maior de todos eles desde Blaise Pascal. O livro conta a história de uma moça e de um jovem padre atormentado pelo demônio. Pode parecer clichê à primeira vista, mas a escrita inconfundível de Bernanos é capaz de desvelar os pecados de seus personagens e também os nossos, inclusive os mais ocultos deles.

Angústia e fé, medo e solidão, bem e mal: sob as tintas do sobrenatural, a natureza humana é exposta com uma rara e perturbadora beleza.

Senhorita Christina (Tordesilhas, 2011):

13900401_1064520326976879_334916732_nO romeno Mircea Eliade (1907-1986) foi um dos maiores e mais respeitados historiadores da religião do século XX. Deixou importantes contribuições na área da religião comparada e mitologia – títulos de sua autoria como “Mito e Realidade”, “Yoga, Imortalidade e Liberdade”, “O Sagrado e O Profano” e os três volumes da sua “Histórias das Crenças e Ideias Religiosas” são hoje clássicos nessas áreas.

O que muitas pessoas não sabem ou ignoram, é que Eliade, que faz parte da mesma geração de conterrâneos como Emil Cioran e Eugène Ionesco, também foi romancista, e dos bons. Entre suas grandes obras está “Senhorita Christina”, que chegou ao mercado editorial brasileiro há poucos anos, onde rapidamente tornou-se um cult underground.

Seu estilo cativa pelo flerte com as forças ocultas tão presentes na maioria das religiões que se dedicou a estudar e compreender. No caso de “Senhorita Christina” (originalmente lançado em 1936), o mito do Strigoi, ou vampiro. Leitura indispensável para quem gosta de Bram Stoker e Edgar Allan Poe.


A
Imensidão Íntima dos Carneiros (Reformatório, 2015):13933138_1064520863643492_782198287_n

Na busca por suas raízes, Marcelo Maluf (41) faz uso da imaginação para recriar o trajeto que trouxe o seu avô do Líbano para o Brasil. O aspecto místico que permeia toda a história é mais que mero recurso técnico ou capricho narrativo. Mais do que uma obra que mescla realidade e fantasia, o livro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016, é um ato psicomágico de descoberta, reconciliação e libertação.

 

As Benevolentes (Objetiva/Alfaguara, 2007):

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Maximilien Aue era um simples jovem alemão de origem francesa quando foi alçado ao posto de oficial do regime nazista, quando tornou-se um temido e cruel carrasco. Após a queda da Alemanha, vivendo tranquilamente em anonimato na França, ele conta com frieza e meticulosidade todas as barbaridades que cometeu em diversos momentos da sua vida como oficial. Um livro aterrorizante e ao mesmo tempo brilhante, “As Benevolentes” foi escrito em francês pelo americano Jonathan Litell (48) e venceu o prêmio Goncourt, em 2006. Recentemente foi adaptado para o teatro e dirigido por Ulysses Cruz, com Thiago Fragoso como Aue e iluminação soberba de Caetano Vilela, que concorre ao Prêmio Shell deste ano.

 

Estação Perdido (Boitempo, 2016):

13933160_1064523040309941_2134888501_nO escritor e acadêmico britânico China Miéville (43) é hoje reconhecido como o homem responsável por renovar a ficção científica. Com elementos de literatura fantástica, seus livros tratam de seres que vivem em lugares que não sabemos se fica em outro planeta, outro universo  ou outro tempo, além de possuírem fundo político e social.

Estação Perdido é o primeiro livro da trilogia Bas-Lag, um mundo habitado pelas espécies mais bizarras e fantásticas que se pode imaginar, onde acompanhamos a saga do cientista Isaac Dan Der Grimnebulin na tentativa de ajudar o garuda Yagharek a recuperar suas asas.

O Homem Sem Qualidades (Nova Fronteira, 2015):

13942397_1064521430310102_1073446403_nSem dúvida um dos trabalhos mais importantes do século passado. Essencial para entendermos o declínio dos valores do período pré-guerras e o pathos de profundo pessimismo que se instaura por todo Ocidente depois. Robert Musil (1880-1942), sob a ótica do personagem Ulrich, tece caminhos que nos levam a conhecer lugares e pessoas em plena decadência moral e social entre o verão de 1913 e 1914. Ulrich não possui grandes pretensões e por isso os jogos e máscaras da sociedade lhe parecem tão gritantes e dispensáveis. Ele também guarda um segredo que se torna insustentável após o reencontro com a irmã Agathe, depois da morte do pai. Musil levou cerca de trinta anos trabalhando nesse romance e mesmo assim não conseguiu terminá-lo antes de morrer.

A Puta (Terracota, 2014):13936552_1064522203643358_410131028_n

Com escrita visceral e vertiginosa, o livro de Marcia Barbieri caminha com maestria pelo labirinto da carne, do luxo e do lixo, da confissão do inconfessável. São vozes que se entrecruzam em um modo de subjetivação sem nome ou rosto. Com seus questionamentos existenciais inconvenientes de extrema necessidade, a autora incomoda, excita e ironiza com a mordacidade digna de um Marquês de Sade. Em suma, filosofia da mais fina qualidade.

Melancolia (Tordesilhas, 2015):

13936676_1064522503643328_1439100724_nO norueguês Jon Fosse (56) é reconhecido como um dos maiores autores contemporâneos. Ficou conhecido principalmente por suas peças, montadas em várias partes do mundo, sendo chamado até de “novo Ibsen”. “Melancolia” é seu primeiro romance lançado no Brasil. Nele, a desolação das paisagens nórdicas é refletida na alma dos personagens através da prosa hipnótica do autor. Vale ressaltar que Fosse foi professor do cultuado Karl Ove Knausgård e que está sempre entre os mais cotados para ganhar vencer o Nobel de Literatura.


O Apocalipse dos Trabalhadores (Cosac Naify, 2013):

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Carregado de metáforas, o romance do português Valter Hugo Mãe (44) é uma ponte sensível entre a esperança e a finitude. Maria da Graça e Quitéria revezam o tempo entre limpar a casa de outras pessoas como diaristas e chorar defuntos que não conhecem como carpideiras madrugada adentro. O dinheiro é pouco mas a fé de ambas em uma vida melhor as revigora. O livro é um retrato ao mesmo tempo bonito e triste não só da vida das dias amigas, mas de todos aqueles que trabalham duro para viver, incertos e apreensivos sobre o que está por vir. Dia após dia.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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